Arte e Tempo: Registrando a Trajetória de Jerônimo Soares

Arte e Tempo: Registrando a Trajetória de Jerônimo Soares

Década de 1990

Década de 1990

1990

Jerônimo: xilógrafo nordestino

Zacarias José

Jeronimo é um artista típico do nordeste brasileiro. Autodidata, teve a felicidade de não frequentar escolas de arte, que utilizando métodos arcaicos castram inapelavelmente toda criatividade daqueles que tentam palmilhar os rudes caminhos artísticos. Jeronimo aprendeu com o seu pai, o poeta popular José Soares a lidar, desde menino, com a dura linguagem da madeira. A vida, a luta diária pela sobrevivência, forjaram seu caráter e foram suas universidades. Jeronimo é um autêntico artista popular. Os "ismos" e modismos importados, aqui copiados de forma diluída, jamais afetaram a sua criatividade exuberante. O artista tem seus pés plantados nos pegajosos massapês de sua terra natal, de onde tira sua inspiração abundante. Como ilustrador de capas de Cordel tem produzido anos a flo inúmeras Ilustrações, onde a xilogravura popular då seu recado despojado e direto.

Jorge Amado, nosso querido escritor baiano, em apresentação de um álbum de xilogravura, assim se expressa sobre o artista: "Jeronimo Soares é um dos maiores e mais notáveis gravadores populares do Brasil. Suas madeiras para capas de folhetos de cordel são de real beleza, poderosas e poéticas. Refletem a identidade do artista com a vida sofrida e a imaginação invencível do povo."

Jeronimo é meio irmão do Marcelo e sua arte tem permanecido fiel a temática fornecida pelo Cordel. O Prof. Homero Senna, Diretor do Centro de Pesquisa da Fundação Rui Barbosa em ensaio sobre o artista, deixou consignado: "O que há de peculiar na sua arte é a pureza, a ingenuidade, que nem mesmo a vida numa metrópole como São Paulo, tão distanciada do seu ambiente primitivo, conseguiu matar."

Embora tenhas sido reconhecido como um grande artista, tem enfrentado enorme dificuldades para fazer conhecida a sua habilidade. Nunca recebeu o menor auxilio oficial, durante anos viveu tão somente dos plicos meios proveniente de sua arte e na praça da República, aos domingos, permanecia teimosamente oferecendo aos turistas as suas xilogravuras nordestinas.

Jeronimo já participou de alguns salões oficiais recebendo o prêmio aquisição no IV Salão de Arte Contemporânea de São Paulo, com a gravura "O Homem Mágico" que figura no catálogo. Trabalhos seus figuram em álbuns publicados na Suíça, França e recentemente no Japão.

Juntamente com seus irmãos Otávio, Marcelo, estarão participando de uma mostra coletiva intitulada "XILOGRAFOS NORDESTINOS", a realizar-se no próximo dia 4 de junho e que permanecerá aberta até o dia 20, na Galeria Castro Neto, & alameda Gabriel Monteiro da Silva, 1258, onde o público paulista poderá ver e adquirir seus trabalhos mais recentes.

Cordel em Movimento.

Texto Severino José

Cerca de vinte pessoas estiveram presentes na última sexta-feira, na Reunião Preparatória para a criação do Movimento Cordelista de Guarujá, promovido pela Casa de Cultura Anarquista, com apoio do la. HORA.

Esteve presente, a Presidente da Associação de Folclore e Artesanato de Guarujá e da Comissão Paulista de Folclore, Baronesa Esther S. de Almeida Karwinsky, que abriu a reunião ressaltando a importância da criação de um Círculo de estudos e produção do cordel em nossa cidade.

Ela, que vem se dedicando cerca de trinta anos ao estudo e divulgação do folclore em nossa região e que, este ano estará promovendo o XXV Festival de Folclore e Artesanato de Guarujá, com apoio da Prefeitura Municipal.

O Encontro contou também com a presença do Dr. Zacarias José, cordelista-editor, de São Paulo, que proferiu brilhante palestra sobre a literatura de cordel; e ainda com a exibição do vídeo "Via Sacra, segundo Jeronimo", realizado por este cordelista.

Zacarias José exaltou também a iniciativa, o que para ele se traduz como um polo de resistência ao avanço incontrolado da mídia, cuja globalização vem destruindo o que há de mais precioso na vida de um povo: a sua cultura popular.

Zacarias, cujo pseudónimo cordelista é Severino José, promoveu a leitura de "Acidentes no trabalho no ramo da construção", um cordel de sua autoria, para exemplificar a construção poética do cordel, criando um momento de verdadeira elevação entre os presentes.

Em agosto próximo, ele estará de volta à cidade, durante a realização do Festival do Folclore, onde estará proferindo a palestra: "A hora e a vez do cordel e da xilogravura popular nordestina".

a Nos próximos Encontros, o grupo presente, considerado fundador, tratará de providenciar documentação necessária para o registro legal da Entidade, bem como iniciará seus trabalhos, cuja pauta prevê o estudo do cordel, leituras e a organização da produção.

Em princípio, numa discussão prévia, a produção, dentre outros temas, estará relacionada com os acontecimentos de nossa cidade, de maneira que o cordel possa remontar às suas origens, cujo principal papel era registrar a história de um povo, num tempo onde não existia rádio nem televisão.

Ficou ainda estabelecido que os Encontros acontecerão todos os domingos, a contar do próximo dia 4 de maio, às 10:00 horas, na Casa de Cultura Anarquista, que sedia o Movimento, que fica na Rua Rui Barbosa, 323-Parque Estuário, ao lado da Escola Afonso Nunes.

E a Casa aproveita para convidar todos aqueles que apreciam, desejam conhecer ou produzir literatura de cordel, a participarem dos Encontros, cujo objetivo é salvaguardar esta forma de manifestação popular e promover a elevação cultural de nosso povo.

Zacarias falando a linguagem do povo. Texto Severino José

Zacarias José dos Santos nasceu em 05 de março de 1932, na cidades de Marcação, hoje General Maynard em Sergipe. Ainda criança, mudou-se com a família para Aracaju.

Tinha o sonho de ser médico, por isto veio para São Paulo, com a ajuda. do irmão, que la residia. No entanto, depois de tentar duas vezes o vestibular, sem sucesso, parte para o trabalho, ingressando no serviço público.

Na Justiça do Trabalho, seu único emprego, começou como servente. Durante a carreira, cursou Direito e também Propaganda e Marketing, cursos que contribuiram para a sua evolução funcional, chegando a ser Diretor da secretaria de uma Junta Trabalhista, aposentando-se como técnico judiciário.

Quando chegou em São Paulo, já era admirador da xilogravura e leitor assíduo da literatura de cordel. Passou a colecionar tudo o que encontrava sobre o assunto e hoje, além de cordelista afamado e possuir uma preciosa biblioteca sobre o assunto, é também pesquisador e editor de álbuns de xilogravura e cordel.

Como cordelista, adotou o pseudónimo de Zacarias José e já produziu inúmeras obras, dentre elas, "Acidentes no trabalho no ramo da construção", realizado para a campanha de prevenção de acidentes, a pedido do Sindicato da Construção Civil, de São Paulo. Realizou também, recentemente, "Via Sacra segundo Jeronimo", um vídeo sobre a xilogravura de Jeronimo Soares.

Chapéu de Couro: Quando o Sr. começou a se interessar pelo cordel? Zacarias: Em Aracaju, eu já gostava muito de xilogravura e cordel. Quando cheguei em São Paulo, fiz um curso de gravura com Renina Kratz, uma renomada gravadora e Fiquei muito empolgado com a arte, a tal ponto, que logo consegui um lugar como monitor da 3a. Bienal de São Paulo. A partir dai, eu fui colecionando tudo o que encontrava sobre cordel e xilogravura.

Chapéu de Couro: Quando o Sr. começou a fazer cordel?

Zacarias: Eu penso que comecei a produzir com mais seriedade, a partir de 1.977. E já fiz muita coisa. Recentemente eu fiz um cordel sobre a AIDS, mas este tive muita dificuldade em divulgar. Por ser uma tema complexo, acaba esbarrando na visão dos psicólogos e assistentes sociais, por uma questão de linguagem.

Chapéu de Couro: E como é a linguagem do cordel?

Zacarias: A linguagem do cordel é a linguagem que o povo entende. Um grande erro, no caso das propagandas sobre a prevenção da AIDS, é que elas são feitas numa linguagem que não chega atingir o povo. E o meu folheto foi feito para o trabalhador da construção civil, pois se verificou que eles estavam sendo contaminados por relações com homossexuais e travestis, nas construções. Então, neste caso, você tem que falar a linguagem deste trabalhador, dentro do universo dele, para que ele possa compreender e se prevenir. Você não pode tratar um Hema destes numa linguagem erudita, que jamais será decodificada pelo povo.

Chapéu de Couro: E como foi criado o cordel sobre a prevenção de acidentes?

Zacarias: Pra você ver... Quando o Sindicato me chamou, eu fiz um cartaz muito bem feito sobre o assunto. Mas não deu resultado. Aquilo não conscientizava o trabalhador como devia. Então, eu fiz um cordel chamando a atenção para o uso correto de cada equipamento de segurança, mostrando importância do uso e os perigos em cada situação. Foi um sucesso.

Abaixo, reproduzimos um trecho deste cordel, que foi ilustrado com xilogravuras de Jeronimo Soares.

"A queda de um andaime Quase sempre causa a morte É mais um filho sem pai Mais uma viúva sem sorte Só trabalhe com cuidado E num andaime bem forte

Se for um prédio bem alto A lei obriga a fazer De três em três andares Uma bandeja p'ra ter Proteção a quem trabalha

Se o equilíbrio perder

Com toda delicadeza Peça hoje ao seu patrão P'ra que ele lhe forneça Aparelho de proteção Assim sai ganhando os três Você, ele e a nação."

A hora e a vez do Cordel e da Xilogravura Popular Nordestina. Texto Severino José

Literatura Popular em Versos (Cordel) tem A sido alvo de inúmeras pesquisas por parte de ensaístas, não só brasileiros como estrangeiros. Ramon Cantel, na França e Mark J. Curran, nos Estados Unidos, têm dedicado vários livros sobre esta forma de manifestação cultural do poνο. Teses universitárias têam-se transformado em livros, como recentemente a de Edilene Matos, lançada pela Universidade Federal da Bahia.

Tudo isto prova que o Cordel está vivo, muito embora tenha passado a "época de ouro", como ficou conhecida a década de 50, quando João Martins de Athaide mantinha uma verda-deira rede de distribuidores de cordel pelo Brasil afora.

Atualmente, devido ao alto custo do papel e da impressão, as gráficas tradicionais nos centros produtores de livrinhos de feira não conseguem manter a clientela. Mui-tas delas acabaram por fechar suas portas.

Apesar disso o cordel con-tinua resistindo, utilizando-se de outras formas para sua divulgação. No Sul está surgin-do o "xerocordel", um cordel xerocopiado, mas sem as ilus-trações em xilogravura que fazem a delicia dos colecionadores. É umanovo cordel, com assuntos atuais, linguagem muito do cordel tradicional.

Em São Paulo, um poeta popular que curiosamente assi na F.Maxado (assim mesmo, com x), manteve durante mais de 15 anos uma luta solitária na divulgação e popularização do cordel, produzindo inúmeros fo-Thetos e publicando sofisticados álbuns de xilogravuras. Na Pra-ça da República, em São Paulo, encontramos ainda hoje alguns poetas tentando divulgar a literatura popular.

Os nordestinos ao emigraream, levaram para todo o território nacional o seu costume de leitura coletiva e, não raro, nas praças de Rondônia, Brasilia, São Paulo e Rio de Janeiro encontramos poetas recitando, com suas vozes سمية feitos de seus heróis. Lampião, Corisco e Padre Ciço.

Mesmo a TV e os grandes jomais, considerados por mui-tos como os grandes responsá veis pelo esquecimento desta forma de manifestação artistica,

... gação do Repente. E muitas emissoras de rádio mantém programas do gênero, alimentando a fantasia dos nordestinos, que assim não perdem suas raízes.

Escritores eruditos inspiram-se no maravilhoso cordelino, tais como Ariano Suassuna, Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade, que produziu um cor-del, musicado por Sérgio Ricardo e ilustrado por Ciro, cujo disco pode ser encontrado em lojas especializadas. Estão ai na praça, para quem quiser: ouvi-los, Elomar e Xangai, com produção musical inspirada no velho cordel aincia bem vivo, em que pese a opinião de alguns criticos que pretendem decretar sua morte.

A vilammes que ilustra a capa de cordel evoluiu muito nestes últimos anos. Albuns im-pressos em papel especial, com textos de escritores famosos, podem ser encontrados em ii-vrarias e, em algumas ocasiões, são apresentados em exposição...

Jerônimo: Xilógrafo nordestino.

Texto Severino José

Jeronimo Soares é um artista típico do Nordeste brasileiro. Autodidata, teve a felicidade de não frequentar escolas de arte, que utilizando métodos arcaicos castram inapelavelmente toda criatividade daqueles que tentam palmilhar os rudes caminhos artísticos.

Jerónimo aprendeu com o seu pai, o poeta popular José Soares, a lidar desde menino, com a dura linguagem da madeira. A vida, a luta diária pela sobrevivência, forjaram seu caráter e foram suas universidades Jerónimo é um autêntico artista popular.

Sismose modismos importados. aqui copiados de forma diluída. jamais afetaram a sua criatividade exuberante. O artista tem seus pės plantados nos pegajosos massapés de sua terra natal, de onde tira sua inspiração abundante.

Jeronimo

Como ilustrador de capas de Cordel tem produzido, anos a fio, inúmeras ilustrações onde a xilogravura popular dá seu recado despojado e direto.

Jorge Amado, nosso querido escritor baiano, em apresentação de um álbum de xilogravura, assim se expressa sobre o artista: "Jeronimo Soares é um dos maiores e mais notáveis gravadores populares do Brasil. Suas madeiras para capas de folhetos de cordel são de real beleza, poderosas e poética. Refletem a identidade do artista com a vida sofrida e a imaginação invencível do povo".

Jerónimo e meio irmão de Marcelo e sua arte tem permanecido fiel à temática fornecida pelo Cordel. O Prof. Homero Senna. Diretor do Centro de Pesquisa da Fundação Rui Barbosa, em ensaio sobre o artista, deixou consignado: "O que há de peculiar na sua arte é a pureza, a ingenuidade, que nem mesmo a vida numa metrópole como São Paulo, tão distanciada do seu ambiente primitivo, conseguiu matar"

Embora tenha sido reconhecido como um grande artista, tem enfrentado enorme dificuldades para fazer conhecida a sua habilidade. Nunca recebeu o menor auxilio oficial; durante anos viveu tão somente dos parcos meios provenientes de sua arte e, na Praça da República, aos domingos, permanecia teimosamente oferecendo aos turistas as suas xilogravuras nordestinas.

Jerónimo já participou de alguns salões oficiais recebendo o prémio aquisição no IV Salão de Arte Contemporânea de São Paulo, com a gravura "O homem magico", que figura no catálogo. Trabalhos seus figuram em álbuns publicados na Suíça, França e, recentemente, no Japão.

(*) O autor, poeta e editor de Cordel reside em São Paulo e mantém um estúdio de pesquisa da Cultura  ...Popular, em Guarujá.

As tentativas de classificação da Literatura de Cordel

Em todo o mundo foram efetuadas várias ten tativas para classificar o imenso repertório dos livretos de cordel. Afirma-se, sem muita precisão numérica, que pelo menos, 50 mil folhetos já foram publicados, somente no Brasil, depois que o grande poeta Leandro Gomes de Barros, no final do século XIX, começou, em Pernambuco, a publicar e comercializar este tipo de literatura popular. Devido ao tipo de papel utilizado, muitos folhetos se perderam. Atualmente, as mai-ores coleções não atingem 20 mil exemplares.

Foi o estudioso Leonardo Mota, por volta de 1921, quem pela primeira vez tentou uma classificação. Recentemente, a Casa de Rui Barbosa, que possui uma das maiores coleções de cordel, orientada pelo escritor Cavalcante Proença, elaborou uma aceitável classificação, que se tornou um modelo, para melhor compreensão da matéria.

Origenes Lessa, partindo da constatação de que a temática dos romances populares é muito variável, elaborou uma classificação engenhosa. Ariano Suassuna e o professor francês Raymond Cantel, tido como uma sumidade no assunto, também têm classificações muito conhecidas.

Das várias tentativas de classificação, que se propõem enquadrar os inúmeros folhetos até hoje produzidos, iremos, a título de curiosidade, arrolar as mais divulgadas e conhecidas entre os pesquisadores, esclarecendo que os folheteiros estão muito pouco preocupados com estas divisões.

O mesmo não acontece com os estudiosos eruditos, que procuram "chifres em cabeça de cavalo". Entre os primeiros estudiosos de nosso cancioneiro popular, destacamos a notável figura de Alceu Maynard de Araújo, que não somente registrava em livros as suas pesquisas, como também as filmava, chegando a produzir várias curtas-metragens, que hoje são verdadeiros documentos sobre costumes e danças que, infelizmente, estão desaparecendo.

O ilustre folclorista apresentou a seguinte classificação que, pela simplicidade, ainda poderá ser adotada como modelo. Para ele, existem seis tipos de folhetos de cordel, cuja temática resumida é a seguinte: a) desafios; b) histórias religiosas; c) banditismo; d) fatos sociais; e) pornografia; f) temas da literatura e história universal.

O mestre e dramaturgo Ariano Suassuna, cuja obra mais conhecida (e mais tarde também filmada), Auto da Compadecida, foi inspirada em dois folhetos de cordel, elaborou uma classificação, dividindo os diversos temas dos cordéis, em ciclos: a) ciclo heróico; b) ciclo maravilhoso; c) ciclo religioso e de moralidade; d) ciclo còmico, satíri-co e picaresco; e) ciclo histórico e circunstancial; f) ciclo de amor e fidelidade.

Outra classificação curiosa, devemos ao estudioso do assunto, Carlos Alberto Azevedo. Este autor propõe a seguinte divisão: a) utopias; b) marido logrado; c) demônio logrado, d) bichos que falam; e) erótico ou obscenidades; f) exemplos e maldições; g) heróico e fantástico; h) histórico e circunstancial; i) amor e bravura; j) cômico e satírico.

Diégues Júnior, pesquisador do assunto, também fornece a sua classificação: a) temas tradicionais; b) romances e novelas; c) contos maravilhosos; d) estorias de animais; e) anti-heróis: peripécias e diabruras; f) tradição religiosa; g) fatos circunstanciais ou acontecidos; h) de natureza fisica (enchentes, secas, terremotos etc.); i) de repercussão social (festas, novelas, esportes etc.); j) cidade e vida urbana; k) crítica e sátira; 1) elemento humano (figuras atuais); m) cantorias e pelejas.

No livro Catálogo da Literatura Popular, o escritor Cavalcante Proença adotou uma classificação que se tornou clássica e preferida dos estudiosos da matéria. Ele dividiu todo o acervo da Casa de Rui Barbosa, obedecendo a seguinte ordem: a) herói humano (herói singular; herói-casal, reportagem - crimes, desastres e politica); b) herói animal; c) herói sobrenatural; d) herói metamorfoseado: e) natureza (regiões, fenômenos etc.); f) religião; g) ética (satira, humorismo, sátira econômica, exaltação, moralidade); h) pelejas; i) cicles (Carlos Magno, Antônio Silvino, Padre Cícero. Getúlio Vargas, Lampião, volan-tes, anti-heróis, bois e cavalos); j) miscelânia (lírica, guerra, crô nicas e descrições).

Roberto Câmara Benjamin, em interessante estudo sobre o tema religioso nos folhetos, sugeriu sua divisão em quatro grupos, assim denominados: a) folhetos informativos, de épocas e acontecimentos; b) romances (narrativas tradicionais); c) opinião (crítica social); d) casos exemplos. Esta divisão tem o merito de ser sintética, abrangendo toda a temática.

A de Origenes Lessa, a mais completa e também a mais complexa, assim estabelece: a) temas permanentes; b) tipos passageiros (desafio real ou imaginário, histórias tradicionais, cangaço Antônio Silvino, Lampião, Maria Bonita - seca e retirantes, vaqueiros e vaquejadas, mistica, histórias bíblicas, profecias, milagres, festas religiosas, beatas e santos do sertão, Padre Cícero, sobrenatural, diabo, romance de amor, aventuras e trágicos.

Finalmente, a classificação atribuída ao célebre pesquisador francês, Raymond Cantel: a) heróico (santos, cangaceiros, valentes, animais); b) satírico e cômico (homens e animais, anti-heróis); c) religioso (Santissima Trindade, Virgem Maria, santos, soldados de Deus. Padre Cicero, Frei Damião); d) informação (mortes, crimes, acidentes etc.).

E vai por aí em frente. Cada autor, pacientemente, elaboa a sua classificação, da rica temática do cordel, numa tentativa, sem êxito, de enquadrar os diversos assuntos versejados pelos poe-tas populares.

(*) O autor, poeta e editor de Cordel, é membro da Comissão Paulista de Folclore.

Viagem a São Saruê: O universo fantástico no Cordel. Texto Severino José

Muito antes do modismo invadir a Literatura dita "erudita", antes mesmo do grande escritor colombiano Gabriel Garcia Marques ter empolgado o mundo com sua imaginosa e fabulosa criação "Cem anos de solidão", os poetas populares do Nordeste já voltavam de um país igualmente utópico. Refiro-me a esta obra-prima do cancioneiro popular nordestino, que é "Viagem à São Saruê", de Manoel Camilo dos Santos.

O homem, em todos os lugares e em todas as épocas, quando se encontram uma situação que lhe é adversa, sem liberdade, sofrendo toda sorte de injustiças, ou se revolta violentamente, ou foge e se aliena criando um mundo paralelo, onde ele sonha com toda sorte e fartura, e onde possa também, gosar plena liberdade.

O poeta encontra nesta "fuga pela imaginação", o alimento para as suas fantasias e dá asas à sua criação com obras que aliviam suas frustrações, tornando suportável resistir às épocas de opressão. A fuga do mundo real para este universo criado pela imaginação é un fato universal e toda literatura bem reflete este fenômeno

Este tipo de comportamento coletivo, não poderia deixar de aconteder também no Nordeste, onde Voreceu é fldreče até nossos dias. O folheto "Viagem à São Saruê é típico e constitui o mais perfeito exemplo de poesia fantástica.

O poeta inicia a sua viagem, tradicionalmente, evocando a musa ou ente sagrado, que há de levá-lo no desejado pais; lugar păradisiaco, onde não há miséria:

Doutor mestre pensamento Me disse um dia: - Você Camilo, vá visitar O país São Satus Pois é e lugar melhor Que neste mundo se vê

A seguir, o poeta toma como transporte, o carro da brl-meio de TOP sa e, como se fosse e fosse uma nave espacial, vai em busca deste lugar tão misterioso, encontrando uma cida de, que o viajante abismado descreve:

Avistei uma cidade Como nunca vi igual Toda coberta de ouro

E forrada de cristal Ali não existe pobre É tudo rico em geral

Depois de fotografar o povo na sua felicidade, descrevendo-o como gente decente, bem alimentada, observa:

Lá vi rios de leite Barreiras de came assada Lagoas de mel de abelha Atoleiros de coalhada Açude de vinho do Porto Monte de carne assada

Curiosamente, esta terra de fartura nos remete às profecias bíblicas e aos sermões desvairados de Antônio Conselheiro. Mas não fica ai não, as maravilhas se sucedem:

Sítios de pés de dinheiro Que faz chamar atenção Os cachos de notas grandes Chega arrastam no chườ As moitas de prata e ouro São mesmo que algodão

Em São Saruê, os problemas de educação já foram há muito resolvidos:

Lá quando nasce um menino Não dá trabalho a criar Já é falando e já sabe Ler, escrever e Conthe Salta, corre, canta o far Tudo quanto mandat

A sáude e a velhice não têm lugar naquela terra sem males, não tem mulher feia, todos são, betos e saudáveis. Erh duas sextilhas inspiradas, o poeta dá o seu recado:

Lá não se ver hulher foin E toda moça é forniosa Bem educada e decente

Bem trajada e amistosa É igual um jardim de fadas Repleto de cravo e rosa

Lá tem um rio chamado O banho da mocidade Onde um velho de com anos Tomande banho's Vontade Quando sai fora parece Ter vinte anos de idade

E como chegar lá neste país, tão diferente da realidade nordestina? E muito simples:

Vou terminar avisando A qualquer um amiguinho Que quiser i para i Posso ensinar o caminho Porém só ensino à quem Me comprar um folhetinho

Assim, enquanto o nordestino vive flagelado, oprimido, mergulhado numa situação historicamente atrasada, dominada pelos coronéis, donos dos "podres poderes", não the resta outra alternativa, senão a foga para o remo da Assim, enquanto o nordestino vive flagelado, oprimido, mergulhado numa situação historicamente atrasada, dominada pelos coronéis, donos dos "podres poderes", não the resta outra alternativa, senão a fuga para o remo da imaginação, buscando uma espécie de compensação para sua continuidade. E para finalizar, Manuel bandeira, que também era nordestino, não desejava outra coisa: inventou a Pasárgadă. E deixo aqui um convite para os leitores: Vamos embora para São Saruê... depois damos uma passada eth Pasárgada Quem sabe, talvez, possamos nos encontrar e rever estes dois grandes poetas! Quem saber

(*) O autor, poeta e editor de Cordel, reside em São Palito e mantém um estúdio de pesquisa da Gultira Popular, en Guarujá.

Folhetos de Encomenda e Propaganda. Texto Severino José

 

Ο capas s mais antigos roihe tos de Coraei não es tampavam nas suas lustrações em xilogravuras e sim singeias composições tipograficas circundadas por vinhetas decorativas Foi ain-da o grande poeta cordelista Leandro Gornes de Barros, quem primeiro utilizou cliché metálico. ao reaproveitar uma foto de um barco de guerra para siustrar um de seus folhetos sobre a Primei ra Guerra Mundial Naquela epoca era muito comum os poetas conseguirem nas oficinas de Jornais velhos clichés. que eram aproveita-dos para ilustrar as capas dos livrinhos de feira

PUITE FORÇA TEM QUE FAZE

Mais tarde, apareceram os cartões postais, importados da Eu-ropa, que reproduziam casais de artistas em românticas poses. Eram utilizados pois serviam para embelezar e tomar as capas mais agradavers. Hoje são vistas como "trash", mas naquela epoca, os postais eram disputados por mo cinhas casadoiras, que coleciona vam em caixas de sapato, como fazem atualmente com retratos de artistas de novelas Coleções interras em poses längurdas, ar-rancavam prolongades suspiros amorosos da juventude sonhado-ra da epoca As capas, impres-sas em papel maniiha colondo. completavam o visual

Xilogravura Popular Nordestina

Cunoso também, são as repro-duções de fotos de artistas famo-sos do cinema amencano Vemos hoje com um certo espanto. Figunnhas carmbadas cavalgando pelas caatingas nordestinas, perse-guando e trocando tiros com can-gacaros: John Wavne. Nirk Dou-glas. Victor MacLaren Somente na década de 20, começaram a aparecer as famosas xiiogravuras. Conta-se que foi o Mestre Noza cuem primeiro uulizou este arcai co modo de impressão.

A xuiogravura como era conhecida, for primeiramente des-coberta na China e Coreia. Trazida pelos viajantes a epoca de Marco Polo, logo espalhou-se peio mundo e tendo papel como suporte, ilustrava os primeiros li-ros. Na Idade Media foi larga-mente usada Tal metodo de im-pressão popularizou as estampas que eram copiadas dos celebres quadros religmosos, tornan-do possivel um grande nu-mero de pessoas possui-rem copias de obras pri-mas, ate então privilegio da nobreza e do alto cle-ro

O "taco", como o nordestino nomeia a matriz em madeira do cliché, era quase sempre executado em casca de caja e emburama, madeira mole que se presta para varias impressões. Com a utilização de instrumen-tos apropriados, o ar-vai cavando o dese-nho (nsco) em baixo relevo, com o dese-nho invertido. De pois de espalhar a tinta por toda a su-perficie, a madei-ra e colocada so-bre o papel de im-pressão e assim se obtem diver-sas copias, ilustran-do as estorias quase sempre fan-tásticas dos livretos.

Via Sacra

Devido ao preço e a dificuida-de de se obter clichés metálicos, a xiogravura passou a ser uma alternativa bastante uulizada. Atu-aimente o artista, compelido pela demanda e peia vaionzação das xios, passou a produzir albuns cada vez mais sofisticados. Mais uma vez o pioneiro neste campo foi o Mestre Noza que teve, em 1965, a impressão de uma Via Sacra de sua autoria, na França.

E a Jerónimo e Marcelo Soares. J Barros. Franklin Maxado, pos-suem albuns impressos em papel de boa qualidade, com apresenta-ção de Jorge Amado e texto de Paulo Dantas. Em 1980, a revista suiça "Xilon, dedicou um nume-ro exclusivamente aos xilograros nordestinos, dentre eles J. Borges. Jerónimo e Marcelo Soares e JBarros. Outras publicações es-trangeiras divulgam a xilogravura nordestina Assim, podemos en contrar albuns japoneses, france ses, ingleses e alemães.

A utilização de cores na xilogravura e um fenómeno recente. Marcelo Soares, Paulo Menten e Ciro Fernandes se destacaram e obtiveram resultados notavers em suas obras, contando, inciusive, com os elogios da critica afinada com a cultural nacional Per outro lado, a xilogravura noviet na tem servido para ilustrar cartazes, capas de livros, discos, cartões de Natal e ate já foi utilizada em novelas, caso de Saramandaia onde 14 xilos foram encomenda-das ao artista Marcelo Soares para servirem comc marcação dos capitu los.

Ensaistas e escn tores, como Cavalcante Proença Origenes Lessa Joseph Luyten, para c tar somente alguns, procuram se debruçar sobre este rico filão de nes sa cultura popular e o resulta do desses estudos de textos ricos em informações Um pouco sobre a xiiogravura e Literatura Populiar em Verse pode ser encontrado nas livrana Martins Fontes. Kosmos, Taxer: Lovola, como também no MASI em São Paulo. Nestes lugares.c estudantes podem encontrar a Sacra segundo Jerónimo em vídeo, e iivrinhos de cordel acondicionados em caixinhas.

(*) O autor e poeta e editor de Corde reside em São Paulo e mantem umestudio de pesquisa de Cultura Popular, em Guarujá.

A coleção de documentos de Jeronimo Soares contempla uma série de  textos publicadas pela revista Chapéu de Couro, escritos Severino José falando sobre cordéis e xilogravuras  e que não necessariamente falam de seu nome, mas que são interligadas à sua carreira. A postagem com a ilustração História do Cordel reune em um documento, uma série destes destes documentos. 
Baixe os doicumentos para sabe um pouco mais.

Linha do Tempo Geral

Linha do Tempo Geral

Década de 1970

Chegada a São Paulo, atuação na Praça da República, feiras nordestinas, diálogo com o cordel, campanhas sindicais e primeiras inserções institucionais estruturam este período.

Década de 1980

fortalecimento da identidade autoral e maior presença em exposições e eventos culturais.

Década de 1990

A de Jeronimo trajetória passa a ser reconhecida como referência na produção de xilogravura vinculada à tradição do cordel.

Década de 2000

 A produção do artista se mantém ativa e vinculada às raízes culturais, dialogando com novos espaços e públicos.

Década de 2010

A obra de Jeronimo passa a ser compreendida como parte da memória cultural e da permanência da xilogravura popular no cenário contemporâneo.

Década de 2020

Sua produção de xilogravuras permanecem como linguagem viva, reafirmando sua presença no debate cultural atual.

Projeto

Arte e Tempo: Registrando a Trajetória de Jerônimo Soares

Realização

Recursos para a realização desse projeto: PNAB – Política Nacional Aldir Blanc — Ministério da Cultura, Governo Federal. Município de Diadema (2025)